27 fevereiro 2014

Uma aventura no dentista

Foi constatado que eu teria que arrancar os 4 sisos, meus queridos dentes que machucaram minha boca nos últimos anos até nascerem por completo. Bem, minha dentista é professora da Universidade e disse que eu poderia arrancar lá, se eu quisesse, e que com isso eu economizaria uma grana. “Não se preocupe. Esse tipo de coisa o professor é quem faz, os alunos só assistem”, disse ela. Então, lá fui eu no dia e horário marcado, toda sorridente e ainda com todos os dentes. 
Fui atendida por uma aluna meiga, doce, uma gracinha de menina. Uma amiga dela se ofereceu para ajudar, e elas começaram os procedimentos de preparar os instrumentos, me dar flúor para bochecho, entre outras coisas. Enquanto faziam tudo, conversavam, claro, duas amigas confidentes que são. 
- Pois é. Vou passar o carnaval em Diamantina, vai ser muito doido! 
- Eu vou também, e vou ficar na casa de umas meninas que nem sabem que eu estou indo. Quero fazer surpresa!
Calma aí? Carnaval em Diamantina? Eu estou aqui deitada com a boca cheia de flúor e elas estão planejando os dias de bebedeira? Pra ser pior só se falassem em Ouro Preto!
- Minha meta é 24. 
- Como assim?
- Uai, 6 por dia! No mínimo!
!!!!
Tá bom, tá bom. Ainda são graduandos. Têm todo direito de se divertirem. Mas espero que o assunto mude logo. 
- Ai, amiga. Que bom que você veio me ajudar. Não sei se conseguiria sozinha. 
- Pois é. Eu tô com horário vago, aí quis vir pra cá. E o professor? 
- Ahh! Dizem que ele nunca vem, e quando vem chega atrasado. Eu nem o conheço, mas dizem que ele é assim. 
AAAAHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!! Sério? E aquela história de que é o professor que faz a cirurgia? 
- Não se preocupa não, amiga. Eu já arranquei uns 3 dentes. Vou te ajudar. 
3! 3 dentes! Se essa é a menina experiente, qual é a experiência da outra?
- Oi, gente! Já em clima de carnaval? – disse um carinha, que com certeza é gay, e que chegou para olhar os meus dentes também. 
- O que é? É siso? Pra que que ela vai arrancar, gente? Eles conseguiram nascer direitinho. 
Eu deveria ter ouvido esse cara. 
- Ah! Não sei. Ela chegou aqui com esse encaminhamento. Então vou arrancar. 
Nunca me senti tão segura!
- Tá. Eu tô à toa mesmo. Vou ficar por aqui e ajudar. Olhem minha tatuagem!!! Fiz pro carnaval. É de marinheiro!
A essa altura tinha tanto suor no meu corpo que tentaram diminuir a temperatura do ar condicionado. Mas ele estava quebrado. 
Ahh! Graças a Deus! A agulha da anestesia. Eu sabia que era local, mas rezei para que fosse anestesia geral nessa hora. A primeira agulhada doeu bastante, mas as outras 5 não doeram tanto. Acho que a anestesia já tinha feito efeito. 
- Vou forçar aqui e você me fala se está doendo. Doeu?
Eu fiz que sim. 
- Então vou aplicar mais anestesia. 
- e agora? Doeu? Vou aplicar mais. 
Essas outras não sei quantas foram depois das 5 iniciais. É assim mesmo? Vária e várias agulhadas? Bem, antes não sentir nada que sentir dor, né. 
Depois das agulhadas começaram a tentar tirar o dente. Várias tentativas, com vários instrumentos diferentes, e nada. Disseram que teve uma hora que ele começou a mexer, mas nada além disso. Aiaiai. Que desespero. A outra menina começou a tentar, enquanto o carinha dava palpites de como encaixar os instrumentos no dente. Nessa hora chegou ainda outra menina. – Deixa eu ver!. Quanto desespero. 
- É, não estamos conseguindo. Será que o professor vai vir hoje? 
- Olha! Acho que foi ele que chegou. 
- Manda chamar!
E voltaram a falar sobre o carnaval. Pelo que entendi o professor chegou cerca de 1h atrasado, sem a roupa de atendimento, e também falando sobre o carnaval enquanto caminhava pela sala, cumprimentava os outros alunos e pacientes e fazia piadinhas desagradáveis a cada um deles. 
- Ele tá demorando muito. Chama de novo. 
Depois de aproximadamente uma eternidade para mim que estava de boca aberta na cadeira de dentista, o professor chegou. Ele conversava com as meninas enquanto lavava as mãos e colocava as luvas. Depois, com ar de quem sabe o que faz, olhou bem a radiografia da minha boca. 
- O que está acontecendo é que esse dente está de tal e tal forma em relação a esse outro que o impede de sair. 
- Mas professor, o dente que estamos tentando tirar é esse aqui do outro lado. 
- Ah, sim, desculpe. Esse dente não está com problema nenhum. 
Uff. Que bom que o professor sabe olhar a radiografia melhor que os alunos! 
Ele tomou o lugar e tentou tirar o meu dente. Tentou com um instrumento, com outro. Mandou buscar outros tantos. Virou, mexeu, trocou de lado, tentou uma alavanca, mudou de instrumento de novo, fez força, e nada! 
Comecei a rezar pelo meu anjo da guarda e para Jesus Misericordioso.
Finalmente ele pegou o jeito e conseguiu uma posição que fez com que o dente começasse a se mexer. 
- Ótimo. Agora tente você – e passou o lugar para a aluna. 
5 minutos depois ela o chamou de novo. 
- Agora ele parou de mexer. Não estou conseguindo mais. 
Ele tomou o assento de novo e as 4 carinhas de alunos ficaram em torno de mim. De repente, pluft! O dente pula para fora da boca, tamanha a força que ele estava fazendo! 
- Olha! Como ele é grande! É maior que todos os que já vimos por aqui!
- Nossa! É grande mesmo!
E começaram a mostrar o dente por toda a sala também para os outros alunos que diziam alarmados: Ele é enorme!
Uff. Finalmente consegui respirar. 
- Dá ele pra gente? É um dente bom para estudar. Nunca vimos um tão grande!
Eu me senti o próprio tigre dente de sabre. Como pude andar tanto tempo com aquela aberração na minha boca? Vou ficar conhecida como a menina do dentão. 
- Não. Ele é meu! (vai que vale uma fortuna). 
...
Por fim, deram os pontos e depois de 2h30 de tortura eu saí da sala toda feliz com meu dente gigantesco. O único problema é que esse foi apenas o primeiro. Ainda tem mais 3! Deus me abençoe!



Texto de Cristiane Corrêa